![]() A Década da coluna
Quem já não sofreu alguma vez de dor nas costas? A dor lombar ao longo da historia sempre atormentou o homem, e seu tratamento foi buscado desde a mais remota antiguidade. É uma das causas mais comuns de incapacidade do ser humano. Aproximadamente 80% das pessoas apresentam, apresentaram ou vão apresentar lombalgia incapacitante em algum momento da vida e de 10 a15% destas pessoas a doença se tornará crônica. Todos sabemos que a maioria dessas dores provêm de algum tipo de prejuÃzo da coluna vertebral. Se esta alteração não for corrigida ou ao menos detida, ao longo do tempo estas dores piorarão, diminuindo, com isto a capacidade do homem em realizar atividades antes desempenhadas normalmente, e que por alguma razão já não podem ser realizadas. Isto leva a pessoa sinta-se condenada à imobilidade, ao repouso ou ao sedentarismo. Quem não se sentiria deprimido por esta situação? Quem não diria: São coisas da idade!. E certamente quem não vai se sentir velho? A sociedade atual exige hoje mais do que nunca que nosso organismo esteja preparado sempre para qualquer tarefa seja qual for o esforço fÃsico que esta precise desempenhar, também exige que nosso corpo projete saúde, dinamismo e jovialidade. Porém é importante que nós possamos realizar estas atividades sem ter a menor incapacidade ou limitações. Por isso é primordial conservar a função e mobilidade da coluna vertebral, porque ela transmite a linguagem corporal de nossa saúde. Para compreender a doença da coluna vertebral e seu tratamento, temos que saber primeiro que ela está subdividida em três segmentos que cumprem diversas funções. Estas são: o segmento cervical, o torácico e o lombar. No entanto, a coluna vertebral inteira serve de eixo de suporte para todas as estruturas do corpo e para manter a posição ereta da pessoa, não obstante, cada porção realiza funções ligeiramente diferentes à s outras. O segmento cervical serve de receptáculo para a cabeça e como tal permite os diferentes movimentos desta, por conseguinte, realiza uma maior classe e quantidade de movimentos que os outros segmentos. Por isso é que tem uma maior tendência a prejudicar-se depois de algum evento traumático, como por exemplo, um acidente de trânsito, uma queda, uma briga, etc. A parte torácica serve de suporte aos órgãos do tórax e por estar ela firmemente unida à s costelas é a porção mais rÃgida da coluna e a menos suscetÃvel à s lesões. Finalmente a porção lombar ou lombo-sacra da coluna vertebral tem um pouco de todas as funções anteriores, ou seja, permite alguns movimentos, tem rigidez e, sobretudo, tem a capacidade de suportar todo o peso da pessoa, permitindo ao mesmo tempo os movimentos do tronco. Por conseguinte, esta é a parte da coluna que tem a maior tendência a enfraquecer com a idade e com envelhecimento normal do organismo. Pois é lógico que depois de tantos anos de sustentar todo o peso e o abuso do corpo humano, este chega a um momento que começa a cansar-se e então começa a envelhecer de maneira progressiva, mediante um mecanismo conhecido como processo degenerativo da coluna. Na realidade as doenças da coluna são fundamentalmente traumáticas, degenerativas ou tumorais. As mais freqüentes são as degenerativas, provocadas por má postura , o avanço da idade, o sedentarismo e outras tantas agressões que acontecem ao longo da vida e que atingem principalmente à coluna lombar. Podemos então imaginar o sofrimento desta ao suportar todo o peso de uma pessoa obesa, e se somamos a isto a falta de atividade fÃsica e imobilidade, uma má qualidade de vida, má alimentação e as agressões psÃquicas e sociais que de uma maneira ou outra nos afetam, então este processo degenerativo da coluna vai se acelerando. Neste caso, o médico procura, na sua função terapêutica, melhorar a qualidade de vida do paciente, diminuindo a dor, que o deixa inválido, e de alguma maneira modificando ou detendo os fatores lesivos que podem progredir com o processo degenerativo. Muito se tem dito e escrito sobre o tratamento da doença degenerativa da coluna, e muito ainda está por vir. Mas temos avançado muito se compararmos como eram as coisas há 50 anos. É só lembrarmos ou perguntar aos nossos pais ou aos nossos avós como a vida de qualquer pessoa antes era restrita quando sofriam de alguma doença da coluna, e como poucas opções médicas podiam ser aplicadas. Com isso, as patologias evoluÃam rapidamente para uma diminuição das atividades fÃsicas. A regra era que depois de certa idade as pessoas tinham que usar uma bengala, pois esta simbolizava a velhice. Era muito freqüente ver as pessoas dobradas pela dor e pela degeneração da coluna. Muitos diziam, e ainda dizem, que era melhor manter-se assim do que se submeter se a qualquer tratamento médico ou cirúrgico, porque acreditavam - e alguns ainda acreditam - que pouco podia ser feito. Hoje em dia, não é que isto não exista, mas tem diminuÃdo consideravelmente.São menos as pessoas entrevadas e com bengalas que nós vemos, e o número de pessoas com mais de 60 anos realizando atividades fÃsicas é bem maior. Com certeza, isso indica que há melhora na qualidade de vida da população. Mas isto é devido, entre outras coisas, aos grandes avanços tecnológicos que têm acontecido no tratamento médico e cirúrgico desta doença. Hoje se sabe que a maioria das pessoas que tem alguma dor lombar ou cervical é suscetÃvel a melhorar ou a controlar com tratamento médico, à base de remédios, pois hoje em dia existe um grande arsenal de medicamentos que podem aliviar essa dor. Também com os avanços e os maiores recursos da fisioterapia, pode-se controlar não só a dor, mas também é possÃvel impedir a o processo degenerativo da coluna. O tratamento cirúrgico está reservado apenas a 5% destes pacientes, nos quais o tratamento médico ou a fisioterapia, além de outras técnicas conservadoras, não deram resultados. A cirurgia espinhal também tem evoluÃdo de maneira surpreendente, se compararmos como eram realizadas anteriormente e como se realizam hoje. No passado, praticavam-se grandes incisões na pele e nos músculos e grandes extrações dos ossos da coluna para poder eliminar pequenas lesões, como por exemplo, uma hérnia de disco. Ou seja, era praticamente uma cirurgia destrutiva. Isto foi progredindo, de maneira que as incisões agora são menores e a destruição óssea também. Posteriormente, surgiram as técnicas de fusão óssea na coluna que resolveram os problemas de instabilidade da mesma. Isto significa que a coluna não pode realizar movimentos harmônicos entre suas vértebras, levando a uma degeneração das articulações das vértebras, conhecida como artrose. Este processo de instabilidade leva consigo também a degeneração do disco intervertebral, que serve de amortecedor da coluna. O desgaste que se desenvolve ao longo da vida afeta segmentos da coluna que acabam sofrendo atritos tanto na área cervical, como na lombar, e faz com que a pessoa sinta muita dor quando move a coluna ou quando está muito tempo em uma mesma posição. Com o passar do tempo leva o indivÃduo a não conseguir desempenhar as tarefas mais simples, tais como trocar uma meia, calçar sapatos, lavar o rosto e escovar os dentes, etc. A coluna fica travada, sofre fisgadas dolorosas e este estado degenerativo vai evoluindo de maneira progressiva até que o paciente sente-se praticamente inválido. Na atualidade, as técnicas de fusão (grudar um osso noutro) têm atingido um grande avanço no tratamento das doenças degenerativas, na qual significa, colocar certa quantidade de material de implante na coluna, tais como parafusos e barras de titânio para imobilizar os segmentos doentes da coluna, promovendo união óssea e assim, evitando a progressão da doença, e diminuindo a dor. Esta técnica trouxe um grande avanço no tratamento cirúrgico da coluna, mas resultam ser muito agressivas para o paciente: há grandes incisões na pele, além de muita manipulação e lesão muscular e óssea para poder chegar ao objetivo da cirurgia, que é a fusão. A conseqüência disto é um maior tempo de internação hospitalar, de recuperação pós-operatória prolongada e maiores probabilidades de complicações. Hoje contamos com um procedimento relativamente novo no Brasil, mas que já vem sendo utilizado rotineiramente no exterior no tratamento de deformidades, tumores, processos degenerativos, hérnias de disco e outras doenças da coluna vertebral. Trata-se da técnica por via endoscópica que vai substituir, gradativamente, o método convencional no qual se praticam grandes incisões para se retirar pequenas lesões ou para se realizar implantes na coluna desgastadas pela degeneração. A cirurgia endoscópica oferece múltiplas vantagens se comparada à técnica convencional. Além disso, quase todas as patologias da coluna podem ser tratadas por esse novo procedimento. Esta técnica agride menos as estruturas musculares em volta da coluna, que colaboram importantemente com a sustentação do corpo humano. A nova técnica consiste na introdução de um tubo oco através de uma pequena incisão menor que 2 cm. Dentro deste é colocado a fibra óptica, que além de iluminar o campo cirúrgico, transmite a imagem para um monitor. Através desse tubo é que o cirurgião trabalha com seus instrumentais cirúrgicos. Com esta técnica o traumatismo cirúrgico é menor, assim como a dor pós-operatória. O paciente recebe alta no mesmo dia, dispensando o uso de analgésicos antiflamatorios e antibióticos, reduzindo também o custo hospitalar. Em um espaço de dois a três dias, o paciente pode retornar à s suas atividades normais e os atletas podem voltar aos treinos em aproximadamente 15 dias. Dependendo da patologia e da região da coluna a tratar, o cirurgião terá que fazer três ou quatro pequenas incisões e modificar o tipo de aparelho endoscópico, mas sempre com os mesmos princÃpios de menor agressividade ao organismo. Se a lesão está localizada na coluna torácica, é preciso três pequenas incisões para trabalhar dentro do tórax, não só para dar passagem da iluminação e a óptica, mas também para facilitar o acesso dos instrumentos de trabalho e materiais de implante, se for necessário. Com isto, evita-se a abertura completa da parede torácica (toracotomia), com afastamento das costelas para acessar o lugar de trabalho, sendo esse o procedimento padrão com todas as conseqüências que pode trazer. Na verdade se busca uma cirurgia minimamente invasiva. Usando a mesma técnica na coluna cervical, quando o nervo está pressionado por uma hérnia de disco ou por uma artrose, a intervenção convencional obriga o médico a afastar a traquéia e o esôfago para retirar o disco lesado e o osso que comprime o nervo. Usando a endoscopÃa, faz-se uma incisão minúscula, inserindo o tubo para a descompressão, soltando o osso, retirando a hérnia, se for necessário, e liberando o nervo. Essa intervenção traz uma vantagem técnica e, com a diminuição da agressividade, favorece o paciente na recuperação e o mesmo obtém alta 6 horas após o término da cirurgia. Com a endoscopÃa também pode-se tratar as doenças próprias do disco intervertebral, nas quais provocam dor, mediante a colocação de um "calço" entre uma vértebra e outra, levantando-as para sua posição correta. Com uma cirurgia minimamente invasiva o disco é retirado por endoscopÃa e é substituÃdo por um ou dois pequenos parafusos ocos de titânio recheados de osso do próprio paciente, isto com a finalidade de promover a fusão óssea entre as duas vértebras. Com este ato, a dor melhora ou desaparece, e se restabelece a estabilidade do segmento espinhal doente, devolvendo a sua funcionalidade e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida, possibilitando ao paciente a retomada de sua vida normalmente. Contudo, ela não restabelece o movimento normal do segmento doente. Com os avanços tecnológicos mais recentes da cirurgia espinhal já é possÃvel contar com o recurso da próteses de disco vertebral, isto é de grande beneficio para o doente de discopatÃa degenerativa, já que se faz uma troca de maneira parcial ou total do disco vertebral doente por outro artificial. A grande importância desta nova técnica é que o segmento doente (degenerado) da coluna volta a ser normal ou quase normal, restabelecendo a estabilidade da coluna e permitindo seu movimento. É certo também que a melhora da dor é significativa e o indivÃduo volta a ter praticamente a mesma capacidade para realizar qualquer tipo de atividade fÃsica. Vale ainda ressaltar que a quantidade de pessoas que sofrem deste mal é bastante grande e podem elas beneficiar-se deste procedimento. Esta técnica de implante de disco artificial também pode ser realizado pela técnica de cirurgia minimamente invasiva e com o auxilio da endoscopÃa E o mais importante é que pode-se prorrogar e até evitar a realização de uma cirurgia de fusão, com as potenciais conseqüências negativas que esta pode trazer. Para todas estas opções terapêuticas disponÃveis na atualidade é preciso e é mandatário que a pessoa tenha mudanças dos hábitos e do estilo de vida, que facilmente são identificados como causadoras ou contribuintes da degeneração da coluna vertebral. É importante ainda lembrar, que a doença da coluna é um processo degenerativo em marcha e vai tomando seu curso, e nós os médicos, a única coisa que até agora podemos fazer é de alguma maneira controlar o processo e corrigir alguns danos já estabelecidos, para que o doente possa ter uma vida mais normal e com menos dor. Fomos contemplado em décadas passadas com grandes progressos em outras áreas da medicina, tais como na fertilidade e controle da natalidade, nos transplantes de órgãos, na cirurgia estética, no tratamento das doenças cerebrais e outras. Hoje assistimos a uma nova década, que certamente nos oferecerá grandes avanços cientÃficos e progresso médico. Acreditamos que os grandes progressos que estão por vir, em muito, beneficiarão o desenvolvimento do tratamento da coluna vertebral, e que elas vão seguir mudando nossa conduta de tratar esta doença. Há de ser assim, porque por alguma razão, no mundo médico atual, esta tem sido denominado como a década da coluna. [ Indique a um Amigo ] [ Imprimir ] ![]() |
Dr. Luiz Pimenta - Especialista em Cirurgia da Coluna Minimamente Invasiva
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